1 de mai. de 2009

Definitivamente, os filmes infantis não são mais para crianças.

Tarde de quarta feira e resolvi matar a repetitiva aula de antropologia no cinema, com a minha irmã. A sala, quase vazia, abrigava sobretudo meninos acompanhados de suas mães. Isso logo se explica: a sessão era do Monsters x Aliens, animação em cartaz nos cinemas de Porto Alegre e etc e tal.
Entretanto, a trama exibida no telão não era mais uma histórinha de tons maniqueístas, tão recorrentes quando a única preocupação é a formação moral - e não crítica- do público infantil. De início, os preparativos de um casamento ocidental, no qual a noiva era caracterizadamente uma tonta, apaixonada e vestida de branco me trouxeram à lembraça um seminário assistido ano passado. A discussão travada neste dia dizia respeito dos modos de ser e agir que os meios de comunicação (e num caso mais específico, o cinema) impunham sobre a sociedade. No caso debatido, o alvo eram as crianças e a problemática, o machismo. A discente, autora da dissertação, cujo nome não recordo, falava específicamente dos pontos desagradáveis da também animação "Os incríveis". Os problemas que no momento ela abordou, agora, não nos importa. O que vale realmente é que se eu a encontrasse hoje, exageros a parte, lhe diria que "Monsters X Aliens" redime o cinema norte-americano de quaisqueres manipulações, que possam ter feito um dia, da imagem da mulher (em tom minimalizador) ou da imagem do homem em tom maximizador. A personagem central, Susan, é uma verdadeira heroína que, ao fim e estragando os prazeres de quem planejasse assistir ao filme, até dá um pé na bunda, não só de seu ex-noivo, como no de qualquer submissão que sua relação com ele pudesse acarretar.
Cheio de piadinhas inteligentes demais para crianças de cinco anos, o filme conta com uma pitada de humor negro, sacadinhas que eu diria feministas e, lamentavelmente, um final clichezão "de aceite as diferenças". Se na década de noventa, ou até depois disso, a cinematografia infantil nos mostrava o dever ser, a produção atual, ao menos esta, tem nos mostrado um Estado - exagerando- repressor e - claremente - agressivo, uma imagem feminina tão forte quanto a do Sr. Incrível e que um final feliz- mesmo que nada surpreendente - pode não contar com um beijão mesmo que a protagonista seja um ser do gênero feminino.
Enfim, aquelas mães da sala de cinema certamente - mesmo que sem perceber- aos poucos repensarão seus reais poderes, os quais - obviamente- não são os de elasticidade e flexibilização frente aos percausos da vida e sim, certamente, o da força e - sobretudo- o da autonomia de uma imagem do feminino construida a base de pó, batom e avental de cozinha.